Música da criança e a relação com a expressão gráfica infantil. Por que valorizamos as garatujas das

Já teve um momento na educação em que as garatujas infantis, as primeiras pinturas, os rabiscos, a livre exploração dos materiais artísticos, não eram reconhecidos e valorizados. E mesmo com crianças pequenas, os professores ensinavam a segurar o lápis, o pincel e iniciavam o ensinos dos traços firmes, dos desenhos figurativos, das pinturas dentro das formas e não possibilitavam a livre exploração que hoje reconhecemos, e valorizamos. A arte educação se desenvolveu, se transformou e hoje as crianças, em grande parte dos lugares, já tem suas garatujas reconhecidas como sua primeira manifestação artística.

No entanto, o reconhecimento das primeiras manifestações musicais da criança, apesar dos esforços e avanços da educação musical, não conquistou o mesmo espaço na maior parte dos contextos.

Quando a criança pequena explora um instrumento musical de forma livre, observando seu gesto sonoro, experimentando as diferentes qualidades sonoras ainda que sem consciência disso, a maior parte dos adultos entende aquilo como barulho e não como sua forma de fazer musical. Não seria o mesmo considerar as primeiras pinturas de crianças pequenas como "bagunça"? Em alguns lugares, as crianças só passam a ter contato com os instrumentos musicais quando já estão preparadas para aprender a tocá-los, da forma convencional. Não seria o mesmo que limitar o contato da criança com a tinta, os pincéis? E esperar o momento em que ela já estará pronta para aprender técnicas convencionais de pintura?

Na Teca Oficina de Música, as crianças, desde o início, tem a oportunidade de explorar os instrumentos musicais e materiais sonoros, percebendo as diferentes qualidades dos sons, descobrindo formas expressivas de produção sonora. Porque compreendemos que a criança tem seu próprio modo de fazer música, que deve ser reconhecido, valorizado e estimulado em todas as suas fases. Compreendemos que a relação da criança com o universo sonoro será transformada, e chegará o momento em que a criança terá interesse por aspectos mais "precisos" deste universo: aprender as notas musicais, reproduzir pequenas melodias e células rítmicas, conhecer o sistema de notação musical tradicional... Mas acreditamos que tudo acontece no tempo que deve acontecer. O tempo da criança, de cada criança. E todas as fases são importantes e necessárias para a formação musical.

O texto abaixo (parte do livro "Música na Educação Infantil" de Teca Alencar de Brito) aborda bem esse tema.

"O modo como as crianças percebem, apreendem e se relacionam com os sons, no tempo-espaço, revela o modo como percebem, aprendem e se relacionam com o mundo que vêm explorando e descobrindo a cada dia. A partir dessa ótica, com a intenção de complementar a análise de Delalande, falaremos ainda sobre a expressão musical das crianças seguindo uma trajetória que vai do impreciso ao preciso.

"Preciso" ou "impreciso" não têm, de forma alguma, conotação de valor, de certo ou errado, melhor ou pior etc; referem-se, sim, às condutas infantis de exploração e produção sonoras.

(...)

Muitas crianças de dois a três anos de idade acompanham uma canção com movimentos regulares, seguindo o pulso, sem que isso seja um critério organizador para elas, que podem desviar-se e passar a acompanhar a mesma canção de forma não métrica, sem a consciência do que isso implica do ponto de vista musical. O que está em jogo, então, é sempre a questão da consciência.

Felipe, como exemplo, tinha quatro anos quando, ao visitar a escola de música, explorava com liberdade o teclado do piano. Felipe tocava ora nos graves, ora nos agudos, produzindo blocos de sons , alguns sons discretos, sem se preocupar em localizar as notas musicais no teclado. O menino tocava com alegria e prazer, e resolveu convidar sua mãe para tocar junto com ele:

"Vem, mamãe, tocar piano junto comigo".

A mãe aproveitou para reforçar o sentido da visita a uma escola de música:

"A mamãe não sabe tocar piano. Só o papai sabe, porque a mamãe não estudou, não aprendeu a tocar!"

Felipe escutou o que sua mãe disse e, então, respondeu:

"Pode vir tocar, sim, que eu ensino você. Eu já sei. É só apertar que o som sai!"

Ele traduziu muito bem o que significava para ele, aos quatro anos, tocar piano ou, em outras palavras, fazer música. O piano era um grande bloco de sons que ele explorava qualitativamente: variava as alturas (do grave ao agudo), a intensidade, tocava sons sucessivos, depois simultâneos etc., exercitando gestos necessários e adequados à realização musical pelo piano, que ele já tivera a chance de observar. No entanto, Felipe não se preocupava em saber onde estava a nota dó e tampouco buscava reproduzir ou imitar estruturas sonoras conhecidas. Acima de tudo, ele criava sua própria música, reproduzindo gestos, experimentando, criando...

A exploração sonora de Felipe ao piano, ao lado dos demais exemplos, ilustra o significado de "imprecisão" no contexto do fazer musical: lidando com elementos pertinentes à música, Felipe não se preocupava em precisar as alturas e durações que produzia, tocando aleatoriamente e encantando-se com os sons que percebia. Sua música não era, ainda figurativa, desconhecendo os conceitos de melodia, ritmo e harmonia em sua forma tradicional.

(...)

Faz sentido estabelecer uma ponte entre a expressão musical e a expressão gráfica das crianças até a idade de seis anos, com base nas colocações acima? Da exploração sensório-motora das formas circulares e verticais, desenhadas com força e ocupando o espaço do papel globalmente, à produção do desenho figurativo, que reproduz uma cena, um lugar, é possível perceber pontos de convergência entre a expressão nas duas linguagens (e, aliás, entre quaisquer formas de pensamento e ação infantis): a ausência de formas definidas, a exploração concreta dos materiais, o gesto que é ação, a utilização não convencional do espaço, transformando-se até o estágio em que o desenho persegue conexões cada vez mais próximas com o real, delimitando espaços e usando cores intencionalmente, sintonizam-se com a exploração sonora que vai do gesto à criação de formas sonoras.

(...)

A "garatuja sonora" do bebê e da criança pequena sintoniza-se com o modo como ela explora os materiais sonoros que tem em mãos, com a exploração de sons vocais com que se entretém por longos períodos, sem que importe o resultado e sem que o uso de "regras gramaticais" dessa linguagem faça o menor sentido, como aliás, só poderia ser. Importa explorar os materiais, imitar a ação, nessa fase que o pedagogo e pesquisador musical inglês Keith Swanwick chama de "manipulativa", com ênfase na exploração dos materiais, e que, para François Delalande, corresponde ao período de exploração sensório-motora, ambos apoiando-se nas pesquisas de Jean Piaget.

Varias a velocidade, a intensidade, explorar e realizar sons de diferentes alturas, diferentes durações, sema orientação de um pulso regular, é maneira de fazer música sintonizada com as crianças de até dois ou três anos, ainda que muitas diferenças possam ser ouvidas, em virtude de aspectos que podem dizer respeito ao desenvolvimento e ao percurso individuais, ao contexto socioeconômico em que vivem as crianças, ao maior ou menor contato com manifestações musicais, aos estímulos de amor, afeto, segurança etc.

(...)

Obviamente, respeitar o processo de desenvolvimento da expressão musical infantil não deve se confundir com a ausência de intervenções educativas. Nesse sentido, o professor deve atuar- sempre- como animador, estimulador, provedor de informações e vivências que irão enriquecer e ampliar a experiência e o conhecimento das crianças, não apenas do ponto de vista musical, mas integralmente, o que deve ser o objetivo prioritário de toda proposta pedagógica, especialmente na etapa da educação infantil.



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